A crise de legitimidade da escola secundária portuguesa funda-se na contradição social entre a função de instrução de massas que promove a igualdade de oportunidades e a função de hierarquização que garante a apropriação desigual do sistema de ensino pelos grupos sociais melhor colocados na lógica da dominação para o fazer. Deste modo é provocada uma descoincidência entre as expectativas de escolarização induzidas em segmentos crescentes da população pelo aumento da rede escolar e a (in)capacidade de o Estado e das escolas responderem a tais expectativas. A crise de legitimidade tem um impacte profundo no modelo institucional e organizacional da escola. Neste artigo, analisamos a contradição organizacional que põe o Estado em confronto consigo mesmo, ao apresentar simultaneamente modelos racionais e normativos de gestão do sistema educativo. Para tanto, observam-se os dois dispositivos de compensação privilegiados pela administração educativa no sentido de responder aos problemas de consentimento, mobilização e envolvimento dos actores educativos: os processos de legalização e a actualização dos mitos institucionais. Um primeiro ensaio empírico é realizado a partir da análise dos processos disciplinares do núcleo técnico-pedagógico da Inspecção-Geral de Educação referente ao período 1983-1991.